Lunda Tchokwe

Os Tchokwe / Chokwe desfrutam de uma admirável tradição de esculpir máscaras, esculturas e outras figuras. A sua arte inventiva e dinâmica, é representativa das várias facetas inerentes a sua vida comunitária, dos seus contos míticos e dos seus preceitos filosóficos. As suas peças de arte gozam de um papel predominante em rituais culturais, representando a vida e a morte, a passagem para a fase adulta, a celebração de uma colheita nova ou ainda o início da estação de caça. O nome Tshokwe apresenta algumas variantes (Tchokwe, Chokwe, Batshioko, Cokwe) e, entre os portugueses, ficaram conhecidos por Quiocos . "Nesta pagina podemos usar qualquer variante do nome Tshokwe (acima referido)"

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Tradutor/Translation

terça-feira, 19 de julho de 2011

Mukanda = Circuncisão

Actos preparatórios

Dos dez aos catorze anos, os rapazes vão para a mukanda, onde são submetidos à circuncisão e onde lhes são ministrados todos os ensinamentos referentes às canções, músicas, danças da etnia, bem como os trabalhos de artesanato.
Quando numa aldeia ou grupo de aldeias há dois ou três rapazes com idade de serem circuncidados, os pais combinam com o “nganga-mukanda” (operador), com o seu “tchifungudji” (ajudante) e com o “tchikolokolo” (professor e enfermeiro), qual o dia em que será iniciada a festa que precede a entrada na mukanda.
Convém esclarecer que, para cada “kandantche” (aluno), o pai deste escolhe o operador, o ajudante e professor, mas ao último só pagará quando o filho sair da mukanda.
Antigamente, estes pagamentos eram feitos em animais domésticos, bebidas e pulseiras de metal; hoje são feitos em dinheiro. Todos estes pagamentos são feitos pelo “tchikolokolo”, no dia da operação (circuncisão).
Duas a quatro semanas antes do dia marcado, o pai dá um “mwive” (flecha) ao filho e diz-lhe que vá entregá-lo ao “nganga-mukanda”. Reunem-se todos os candidatos e cada qual vai entregar o seu “mwive” ao operador, que os espera na “tchota”, sentado. Então, cada um por sua vez pergunta-lhe:

-Ika una-se mu mivungu wé: china makala nyi ika ?
(O que é pões dentro das tuas cabacinhas: carvão ou o quê?)

 Ika una-se mu mivungu wé: china makala nyi ika ?
(O que é pões dentro das tuas cabacinhas: carvão ou o quê?)

Depois de receber as flechas e ter ouvido a mesma pergunta de todos os candidatos, o operador levanta-se, vai a casa e, empunhando uma cabacinha em cada mão, levanta-as à altura da cabeça e diz:

-“weva tfu” – (ei-las)

A estas palavras respondem todos os candidatos e pessoas presentes:

-“woho!” (é verdade!)

Mal acaba esta exclamação, começam logo os tocadores de “ngoma” e “tchinguvu” a marcar o compasso das danças que o operador executa, acompanhado pelos candidatos. Entretanto, vai batendo com as cabacinhas na cabeça dos candidatos e cantando:

-“hitwa poho” (Chegou o momento)

Ao que todos respondem:

“Woho lelu rya vula” (Oh! Nuvem de chuva)

E as canções continuam....
E o operador canta:

-“”Nganga-mukanda wiva woma” (O operador tem medo).

O coro: - “Woma waka” (medo de quê)

Durante algum tempo sucedem-se as mais variadas canções e ditos referentes à circuncisão.
Finda a dança, o operador oficial – chamemos-lhe assim -, despeja parte do conteúdo das cabacinhas na palma da mão, que leva à boca, droga esta que vai depois cuspir no umbigo e nas costas, por altura dos rins, de todos os candidatos. Com este rito termina a festa daquela noite.
Três dias antes da data marcada para a circuncisão, o pai dá uma galinha ou cabrito ao filho, para que seja oferecido ao seu “tchikolokolo”. Este recebe o animal, mata-o e dá uma porção ao seu “kandandji” (aluno), o qual, por sua vez, entrega ao pai a carne recebida. O pai divide-a em duas partes, dando metade ao filho e dizendo-lhe que vá comê-la, repartindo e comendo-a juntamente com os condiscípulos.



Tchifwa e mwima
Mwima
Na véspera da circuncisão, ao romper do dia, o “nganga-mukanda”, seguido do “mukiche” (mascarado) dos “ikolokolo” e de todos os homens da aldeia, marca a “tchifwa”, destinada exclusivamente às danças dedicadas aos “tundanche” (circuncidados).
Para marcar a “tchifwa”, tira um pouco do conteúdo das suas cabacinhas e vai espargindo-o no sítio onde deve ser feito o cercado, nos arredores da aldeia. E à medida que vai derramando o seu “itumbu” (remédio) mágico, os que o seguem vão cravando pequenas estacas que substituem, depois, definitivamente por outras de maior dimensão.
A tchifwa é um cercado redondo, com uma única entrada; junto desta e da parte de dentro, é construída uma pequena palhota destinada à “Ná Tchifwa”, a mulher mais idosa da aldeia a quem compete a preparação das primeiras refeições dos “tundandji”. A razão desta função ser atribuída a tal mulher é para que os circuncidados não emagreçam, não adoeçam ou morram, o que podia suceder se as refeições fossem preparadas por uma mulher de estado impuro, isto é que pudesse ter relações sexuais com qualquer homem, o que a ela é vedado.
Logo que a tchifwa está pronta, pouco antes do pôr do sol, o “nganga-mukanda”, seguido dos “tundandji”, “ikolokolo” e todos os homens da aldeia, vão ao mato cortar o “mwima” (espécie de arbusto a que dão o nome de “mwehe” (Hymenocardia acida)). O “mwima” tem cerca de 1,75 metros de altura, terminando em forquilha, com duas pontas, uma mais alta que a outra.
O operador que vai à frente, quando descobre um “mwehe” que reúna as condições necessárias, tira um bocado de pó das suas cabacinhas e sopra-o sobre o arbusto; ao mesmo tempo, entrega o machado a um dos rapazes. Este, a partir daquela data, passa a ser tratado por “tfumba kambungu”, ou seja o chefe dos tundanche da sua escola. Feito isto, o operador ordena ao candidato que corte o “mwima”.
O “tfumba kambungu”, pegando no machado, vibra um golpe no “mwehe” e passa-o, em seguida, a um outro rapaz que procede da mesma forma. Sem excepção, todos os seus condiscípulos dão uma machadada até que o “mwima” seja derrubado.
Cortado o “mwima”, o kandandji que deu a última machadada, limpa-lhe os ramos e entrega-os ao “mukichi”. Este, à frente de todo o cortejo, transporta-o ao ombro até à frente da porta da “Na Tchifwa”, onde é plantado numa pequena cova, aberta pelos “ikolokolo” e onde o operador põe um pouco de lama para que o “mwima” não seque; se tal sucedesse, o emagrecimento e as doenças poderiam alcançar os circuncidados.
Durante a plantação do “mwima”, o “nganga-mukanda” vai cantando:
- “musaswe, musaswe” – (coisa amarga, coisa amarga)

Ao que o coro responde:

- “woho! Musaswe”.

Terminada a cerimónia, o operador segurando um galo com as duas mãos, entala-lhe o pescoço entre as duas hastes da forquilha. Simultâneamente, puxa-o com força para si e com um brusco esticão separa-lhe a cabeça do resto do corpo. Acto contínuo, pega na cabeça do galo e espeta-a de bico para cima, na ponta afiada e mais alta do “mwima”. Este é regado com o sangue quente que brota do pescoço do animal sacrificado aos espíritos protectores dos “tundandji”, para que os livre de todas as doenças e de todo o mal. Deste galináceo, o pescoço pertence ao “mukichi” e o resto aos “nganga-mukanda”; a mais ninguém é permitido tocar na carne desse galináceo.



Tchisela

Na véspera da entrada dos rapazes na mukanda, logo que anoitece, todos os casais da aldeia e outros estranhos vão para dentro da “tchifwa”. Ali cada um acende uma fogueira, junto da qual se senta. As fogueiras são ateadas em volta e perto do cercado, excepto na parte destinada aos “tundandji”, operadores e “’ikolokolo”. A fogueira do operador-chefe situa-se ao pé da casa da “Na Tchifwa”, a dos “tundandji” e seus “’ikolokolo” junto do “nganga-mukanda”, de forma a que este os veja constantemente.
As fogueiras dos casais são acesas pelas mulheres e a dos “Tundandji” pelos “ikolokolo”; aos candidatos, nenhum trabalho é permitido fazerem na véspera da circuncisão, a fim de evitar qualquer ferimento, com o qual já não poderiam entrar na mukanda, no dia seguinte.
Entretanto começam a ouvir-se os sons ensurdecedores do “tchinguvu”, acompanhados dos “ngoma” (tambores) e do “mukakala” anunciando o começo da “tchisela” (dança da circuncisão).
A “tchisela” é a dança propiciatória da circuncisão, que não se pode dançar sem mulheres. Nesta dança todas as brincadeiras são permitidas; não há maridos nem esposas, apenas homens e mulheres. Cada qual tem liberdade de dançar, agarrar, apertar ou apalpar outrem do sexo oposto de quem goste. Por conseguinte, quem tiver “ukwa” (ciúme) de sua mulher, que vá para casa ou se deixe ficar junto da fogueira, a fim de não provocar qualquer desordem ou querela que possa vir a prejudicar a festa e a alegria dos outros.

Preces e actos pré-operatórios

Logo que nasce o dia, acaba a “tchisela” com todas as suas liberdades, começando outra música, outro ritmo – a “tchianda” ou “kapindjisa”, o batuque de todos os dias, só para dançar.
Logo que nasce o sol, o chefe da aldeia, acompanhado de todos os “tundandji”, dos familiares deles e dos operadores, vai junto da “tchipanga” (cercado) rezar a todas as “mahamba” (ídolos), “miombo” (árvores tutelares da aldeia), e espíritos dos seus antepassados representados por montículos de terra, junto dos “miombo”. Implora-lhes para que tudo corra bem na circuncisão, para que livre os “tundandji” de toda e qualquer doença, feitiço ou mal, e para que os tomem sob sua protecção. Esta prece é precedida e finalizada com a acção de graças de todos os presentes, que se acocoram atrás do chefe.
Tal acção de graças que eles designam de “kusakwia” (agradecer), consiste em tocar com as pontas dos dedos na terra, e em bater as palmas em seguida, acompanhando estes dois gestos com as palavras: “nga byu” (frase de acção de graças).
Acabada a prece, os “tundandji”, acompanhados do “mukichi” e dos operadores, vão buscar a anciã “Na Tchifwa” à aldeia e levam-na à casa construída no recinto da “tchifwa”, onde toda a gente que não foi assistir à prece continua dançando.
Entretanto, os operadores, acompanhados dos seus ajudantes e do “mukichi”, vão abrir outra saída no cercado, do lado oposto à única entrada que até então existia, virada para a aldeia, por onde sairão depois com os “tundandji”, a fim de procederem ao corte dos prepúcios.
Feito isto, abrem caminho através do capim, numa extensão de cem metros, aproximadamente, no terminus do qual, cada ajudante capina uma pequena área com pouco mais de um metro de diâmetro, onde se sentará cada qual com o “kandandji” que lhe foi designado. De todos estes círculos destaca-se o do “tfumba kambungu” (chefe dos “tundandji”), título este que cabe sempre ao parente mais próximo do chefe da aldeia. Ao centro do círculo é aberta uma pequena cova, e sobre esta é colocado um pedaço de pano vermelho, encimado por uma pele de “chimba” (cerval de cor preta) – símbolo da nobreza infantil.
Acabados os círculos, que serão tantos quantos os rapazes a operar, os ajudantes fazem um pequeno muro de terra, que servirá de banco, onde os circuncidados se sentarão, a fim de serem tratados, todos juntos, no final da operação. A este muro de terra dão o nome de “hanga”.
Findo este trabalho, os operadores indicam aos ajudantes qual o rapaz que é destinado a cada um e que deverá ser segurado. Voltam depois todos à “tchifwa”, onde os pacientes esperam.
Logo que chega ao recinto, o operador-chefe entoa a canção anunciadora do começo da operação. Esta canção, que é secundada por todos os acompanhamentos, reduz-se a uma palavra.
O operador canta: - “Musaswe, musaswe”.
O coro responde : - “woho! Musaswe”.
Ao ouvir esta canção, que significa o mistério e o flagelo da “mukanda”, acaba a dança, começando os choros das famílias dos “”tundandji” especialmente das mulheres e dos próprios rapazes, a quem aquela palavra provoca um pavor tétrico.


Tal pavor resulta deste rito não ser rodeado de mistério, por todos os homens e adolescentes já iniciados, e às mulheres e crianças ser vedado tal segredo.
Cantando sempre a mesma canção, Acompanhada da “ngoma” e “tchinguvu”, os “tundandji” e o “mukichi” vão apanhando algumas folhas dos ramos de árvores com que foi feito o cercado da “tchifwa” e deitam-nas dentro do “lwalu” (bandeja feita de leanas), que o operador-chefe segura. Após ter dado a volta ao recinto, pela parte de fora, entram novamente na “tchifwa”. Em seguida, o operador despeja as folhas apanhadas , no “tchino” (almofariz), que está ao centro do local onde se efectuou a dança. Então, o “mukiche” pega no pilão e tritura-as.
Findo este ritual, cada ajudante do operador coloca-se atrás do paciente que lhe destinaram, agarra-o por um braço ou põe-no às costas e, sem mais delongas, leva-o para o círculo que capinou. Seguem-nos os operadores, que se diferenciam do resto do pessoal por uma pena de uma ave espetada no cabelo, por um risco de barro vermelho, feito longitudinalmente, de uma têmpora à outra, passando sobre os olhos e raiz do nariz. O “mukichi” encerra o cortejo e guarda o local da operação, para evitar que qualquer pessoa, alheia ao rito, profane o recinto da circuncisão.
Entretanto, e logo que os “tundandji” são levados, as mães despojam-se dos cintos, tal como fazem sempre que se deitam com o marido. Ajoelhadas em volta do “tchino” (almofariz) sagrado, onde as folhas foram pisadas pelo “mukichi”, ali ficam em profundo recolhimento, com as mãos unidas sobre as pernas, enquanto as lágrimas lhes rolam pelas faces. Entrementes, todos cantam e dançam ao som dos tambores já referidos, para abafar os possíveis gritos de terror e o choro dos operados, que vão sendo despojados das suas vestes durante o trajecto, antes de chegarem ao local já descrito.
A dança só finda à tarde, muito depois de ter terminado e ser anunciado que tudo correu bem.


Operação e actos pós-operatórios

Logo que o local está preparado, os “ikolokolo” sentam-se sobre o círculo capinado. Com eles ficam, sentados e presos, à sua frente, os “tundandji” a operar, com as pernas abertas, seguras pelas do seu “tchikolokolo”. Com os braços, prendem-lhes o tronco, os membros superiores e a cabeça, virada para o lado, a fim de não verem a operação. Esta era feita sem anestesia e assepsia. 
Logo que termina a operação, o pai de um iniciado, ou qualquer outro familiar, anuncia o feito com uma espingarda. Aos “tundandji” é vedado olharem para o poente e para o local onde foram operados. Os operadores, seus ajudantes e os homens da aldeia reunidos, cantam e dançam ao som das “ngoma” e do “tchinguvu”, para ali transportados:
- “”Ako koma tu-ikanga; mulonga wahua, woho!”
(Aqui viemos a esta coisa: a complicação acabou, woho!)
Esta dança é iniciada pelos adolescentes que deixaram a “mukanda” no ano anterior e que para ali se dirigiram, acompanhados de todos os homens da aldeia, logo que ouviram os tiros, anunciando o final da operação. Entretanto, as mulheres recolhem às suas casas, incluindo as mães que estavam ajoelhadas em recolhimento, bem como as crianças de ambos os sexos.
Os “”ngalami”, ou seja os iniciados do ano anterior, um por um, ensaiam alguns passos de dança, ao mesmo tempo que um dos circunstantes canta:
_ “zembele-nu kanda kuhwa” (dançai que ainda não acabou).
Após os “ngalami” terem dado os seus passos de dança, os “ikolokolo”, um por um, vão dançar, regressando novamente para junto do respectivo “kandandji”.
Para acalmar a agitação causada pelo medo, o ajudante coloca sobre a cabeça do paciente um pouco de lodo. Para fazer parar o sangue, põe sobre o golpe, depois de o lavar, um pouco de pó contido nas cabacinhas do “nganga-mukanda”e proveniente de determinadas plantas.
Depois dos “ïkolokolo”, sempre um de cada vez, vão todos os “ïfunguje”, seguidos dos operadores, dançar em frente da “masasa”onde, do lado oposto, está o “nganga-mukanda-chefe”, que operou o “kandandji-chefe”.
Além das personagens atrás mencionadas, podem dançar todos os homens que ali se encontrarem, também cada qual por sua vez. Encerra o ritual o operador chefe e sacerdote, que dança empunhando duas facas da circuncisão, uma em cada mão, tal como os operadores que o precedem.
Ao mesmo tempo canta:
-“Tchikanza tcha mukanda” (o cesto das facas da circuncisão!)
Ao que todos respondem em coro:
-“Neia tchikalo tcha ku-kwata ka nawa” (Também é uma coisa difícil que é necessário segurá-la bem).
Com esta canção acaba a cerimónia depois do operador chefe ter posto o pé sobre a pele da “ngoma”, através da “masasa”.
Finda a dança de acção de graças aos espíritos e ídolos, o sacerdote vai junto dos “tundandji”, começando pelo “kandandji-chefe”, põe, a cada um, um bocado de pó contido nas cabacinhas, sobre a lâmina de uma faca de circuncisão, apresentando-lhe esta, à altura da boca, para que ele sopre.
Ao mesmo tempo que o circuncidado sopra, o sacerdote pergunta-lhe:
-“Wa-twia yia?” (quem é que te substitui?)

Então o iniciado responde, dando o nome de qualquer criança do sexo masculino que não tenha sido circuncidado.
Após esta cerimónia. cada “tchikolokolo”, começando pelo primeiro da direita, põe no chão, junto aos pés do seu discípulo, o salário devido ao operador. Depois de este o ter apanhado, procede de igual modo com o salário do ajudante. Após terem levantado a importância respectiva, os operadores retiram-se, à excepção do operador chefe, pois este tem de dar um “musenge”(copo) de “walua” (cerveja de milho) a cada um dos circuncidados. Em seguida, ordena aos iniciados que vão agarrar o “mukichi”, de que tanto medo tinham.
Então, os mais afoitos, secundados pelos restantes, vão-se aproximando, embora receosos, visto que o mascarado, com um “njango” (catana) em cada mão, lhes diz:
“Não vos aproximeis, pois se o fizerdes, corto-vos a cabeça”.
Entretanto, o operador chefe e os “ïkolokolo” incitam-nos a que o desmascarem e não tenham medo.
Perdendo então o receio, acercam-se, rodeiam o “mukichi”, tiram-lhe a máscara e vêem, com grande espanto, que, afinal, é um homem conhecido de todos.
Descoberto o “mukichi”, o operador chefe canta:
-“Ya swamina” (aquele que estava escondido, secreto)
Ao que todos respondem:
-“Ya soloka” (apareceu, foi desmascarado).
Depois disto, acompanhados dos seus enfermeiros-professores, vão sentar-se à sombra da maior árvore que ali houver, esperando a primeira refeição do dia, enquanto os “ïkolokolo” começam imediatamente a construção das palhotas onde naquela mesma noite, os iniciados dormirão.
Depois da cicatrização da ferida, sentados à sombra da árvore escolhida, ali esperam que o “nganga-mukanda”lhes traga a galinha que ele próprio matou e que a “Na Tchifwa” assou, acompanhada do "xima"  Funje ,  também por ela preparado.
Os iniciados terão de dormir três noites ao ar livre, após o que passam a dormir, três a três, com os respectivos professores, dentro das palhotas entretanto construídas. Cada uma destas palhotas é provida de três camas. Na cabana destinada ao iniciado chefe, a cama do meio pertence a este; aos outros dois iniciados, que dormem de um e de outro lado dele, dão o nome de “kundo” (ajudante ou conselheiro).


Adoração ao sol e refeições

No dia seguinte, ao romper do dia, os ”tundandji” sentam-se virados para o nascente. Assistem nesta posição ao raiar do Sol para que este lhes dê fecundidade e grande potência sexual. Assim se mantêm até que os primeiros raios solares sejam visíveis. Nesse momento, todos se levantam e olham o Sol, com as pernas cruzadas e a mão esquerda no umbigo; voltam à anterior posição logo que o disco solar se observa completamente, e assim permanecem até cerca das 9 horas. A essa hora, um dos professores, que está atrás deles, canta:
-“Kwatcha Kwatchéé” (amanheceu, é dia claro)
Então os iniciados respondem em coro:
-“Woho! Kwatchée” (oh! O dia é claro)

Depois do tratamento, um dos professores diz:
-“kwilu hi kwatcha” (o dia está claro).
Nessa altura é servida aos “tundandji”” a primeira refeição do dia.
As refeições são sempre tomadas em conjunto; para isso, os “tundandji” formam em linha, voltados para leste, tendo o recipiente da comida atrás de si. Deste recipiente tiram-na, aos poucos, para o prato ou tampa da “musaka”, que têm à sua frente, sem olhar para o Poente.
Se, por acaso, durante a refeição, qualquer dos iniciados deixar cair um bocado de comida para o chão, todos eles deitam fora todo e qualquer alimento que tenham à sua frente.
Antes de iniciar qualquer refeição, os “tundandji” são obrigados a deitar fora um “ndambalo” (O “ndambalo”, que os circuncidados cortam dos ramos de uma árvore denominada “mwanga”, é um pauzinho com dois ou três centímetros de comprimento e da grossura de um palito, aproximadamente) e a colocar outro atrás da orelha direita. No final do repasto procedem de igual forma.
Desde que tomam a primeira refeição até cerca das 17 horas, é que os iniciados estão livres da adoração ao Sol e de qualquer outro ritual. Chegada, porém, aquela hora vespertina, que um dos “ikolokolo” assinala, todos voltam à posição que tinham quando o Sol nasceu, e com o respectivo “ndambalo” atrás da orelha direita. Esta posição será mantida sob o maior silêncio e em profundo recolhimento, até que um dos professores lhes ordene que se levantem, a fim de cantarem o louvor ao Sol. Então o professor entoa:
- “kwa-toke” “kwa-toke” (desapareceu, desapareceu o Sol)
Respondem os “tundantche” em coro:
-“woho! Kwa-toke” (oh! Ele desapareceu).
No mesmo momento, o professor atira um pauzinho para a frente a fim de lhes dar o sinal para que deitem o “ndambalo” fora; este é sempre lançado na direcção do oriente, isto é para o lado que nasce o Sol e, com ele, o bem e a vida; o poente, pelo contrário, é sinónimo de mal e da morte.
É esta a razão pela qual os iniciados se consagram ao Sol – “Sá Nganga”, rei e senhor dos feiticeiros, dos ídolos, dos espíritos e do Universo inteiro – para que lhes dê vida e saúde e os torne fecundos.
Finda a adoração e canto de louvor ao Sol, os “tundantche” ficam livres de qualquer ritual até que os galos cantem pela primeira vez.
Porém, sempre que pretendam comer ou beber, é-lhes vedado fazê-lo, sem que coloquem ou deitem fora o “ndambalo”, no início ou no final daqueles actos.
De madrugada, antes que os galos cantem, o primeiro que acordar, professor ou aluno, chama todos os outros. Então, os “tundandji” vão para junto da porta da palhota e abrem-na. Ali, com o “ndambalo sobre a orelha, tomam a posição sentada, como se fosse de adoração ao Sol, e assim permanecem até que os galos cantem na aldeia.
Mal ouvem o primeiro canto do galo, todos saem imediatamente para fora das palhotas, cujas portas estão também viradas para Oriente; ali, de pé e alinhados, em saudação ao Sol com a mão direita, todos ao mesmo tempo , atiram para a frente o “ndambalo”’, exclamando: - “woho”. Feito isto, mantêm-se naquela posição até que os galos cantem, pela segunda vez. Logo que isto sucede, com a mão esquerda atiram para a frente o “ndambalo” da orelha do mesmo lado, acompanhando este gesto com a mesma exclamação: “woho!”.
Esta cerimónia é de louvor ao galo, para que lhes dê potência sexual, exactamente como ele possui. Após isto, vão deitar-se novamente, até ao romper da alva, hora a que, se não acordarem, são acordados pelos professores, para a adoração ao Sol, logo que este desponte.
Convém notar que, sempre que procedem aos rituais de adoração ao Sol ou ao galo, os circuncidados não podem ver o fogo, porque isto poderia torná-los estéreis, sentando-se, por esse motivo, de costas para as fogueiras.
Durante os intervalos dos rituais, são-lhes ensinadas as danças e canções que executarão logo que estejam curados e após a construção da “tchisakia” e da “mukanda”.



in:http://www.culturalunda-tchokwe.com/

2 comentários:

LB-Productions disse...

Bom dia Meu nome é Vanildo.

eu preciso saber mais da Circuncisão femenino na Cultura Tchokwe

LB-Productions disse...

Bom dia Meu nome é Vanildo.

eu preciso saber mais da Circuncisão femenino na Cultura Tchokwe